Um momento para ressignificar o próprio caminho. Este é o horizonte que Francisca Ferreira vislumbrou após se aposentar do serviço público estadual. E ela o encontrou na universidade, ambiente que considera ideal para cultivar conhecimento e compartilhar as experiências acumuladas ao longo da vida. Aos 61 anos, a estudante encara agora o desafio de cursar Ciências Biológicas na modalidade de Ensino a Distância (EaD) na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). As razões que levaram Francisca à Academia reflete um desejo cada vez maior da chamada geração prateada: o de tornar-se produtivo por meio da participação no Ensino Superior.
A estudante está no primeiro período da graduação, depois de ter ingressado em outros dois cursos não concluídos – Turismo e Química, ambos na UFRN. “Depois da aposentadoria, me surgiu um vazio e eu precisava preenchê-lo. Estar no Ensino Superior é motivo de muita satisfação”, frisa. Antônio Tavares vivenciou a experiência de ressignificar a caminhada por duas vezes consecutivas, quando formou-se em Administração, aos 62 anos e, logo depois, em Engenharia Elétrica, aos 67. As duas graduações foram feitas na UFRN.
“Eu tinha muita vontade de aprender coisas novas e queria, principalmente, buscar algo para colocar na rotina depois que parei de trabalhar”, fala Tavares, que está com 81 anos e é aposentado do Exército. O interesse dessa geração pelo Ensino Superior não é exclusivo do Rio Grande do Norte. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), mostram que a participação de pessoas com 60 anos ou mais no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a principal porta de aceso à graduação no País, cresceu 72,7% em um ano, saindo de 9.950 inscritos em 2024 para 17.192 na edição atual.

Na UFRN, a quantidade de ingressantes com mais de 60 anos cresceu 944% em duas décadas. Em 2004, de acordo com a instituição, apenas nove idosos ingressaram na graduação, número que saltou para 94 em 2024. O aumento também é expressivo entre aqueles que completaram 60 anos durante o curso: eram 37 em 2004 e chegaram a 125 em 2024, uma variação de 237%.
Carlos Lucena, de 58 anos, está no quinto período de Gestão de Políticas Públicas da UFRN. Formado em Ciências Contábeis em 2009 em uma instituição privada, Lucena relata que o retorno à Academia tem a ver com diferentes idealizações e também com o incentivo dos dois filhos – Manoel Lucena, de 31 anos, e Carla Patrícia, de 34 – que fazem o mesmo curso que ele.
“Sempre tive o sonho de estudar na UFRN, então, essa foi umas das minhas principais motivações. Mas para, além disso, o desejo de aprender algo novo está sempre presente em mim. Sem contar que fui incentivado pelo meu filho, que também faz Gestão de Políticas Públicas. Depois da minha chegada ao curso, convencemos minha filha a fazer a mesma graduação. Ou seja, a família toda se reúne em torno desse mesmo objetivo”, relata orgulhoso.
Reorganização financeira e presença no mercado de trabalho
A rotina de Carlos Lucena é puxada. Além das aulas da graduação à noite, no início deste ano ele começou o Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Urbanos e Regionais (PPEUR) da UFRN, no período da tarde. No último dia 15, ele iniciou mais um desafio: um estágio na Secretaria de Estado do Trabalho, da Habitação e da Assistência Social (Sethas/RN). Além disso, o estudante concilia todas essas atividades com o trabalho autônomo na área do Cooperativismo.

O dia a dia movimentado é encorajado pelo propósito de buscar uma nova reorganização financeira e espaços no mercado de trabalho. “Voltei a estudar na tentativa de me inserir no mercado formal novamente, algo que deixei em 2020. Também tenho conversado com meu filho sobre uma ideia dele de a gente montar projetos de consultoria para a área de gestão de políticas públicas. E também está nos meus planos tentar concurso público. É isso que me motiva a acordar às 4h, pegar o ônibus até Natal para o estágio, seguir para o mestrado à tarde, assistir aula da graduação, voltar para casa e dormir somente depois de meia noite para, no dia seguinte, começar tudo de novo”, descreve Lucena, que mora em Brejinho, município distante quase 50 km de Natal.
Priscila Lopes, gerente de Talentos e Cultura do Banco Mercantil, avalia que a chegada à universidade pode representar uma importante contribuição para a vida financeira da geração prateada e uma ferramenta de estímulo para a participação no mercado de trabalho. O Banco possui um programa de estágio que oferece vagas afirmativas para pessoas acima dos 50 anos matriculadas na universidade. É o Acelera+, voltado à inclusão geracional da instituição e que é um desdobramento do programa de estágios Acelera Mercantil.
“Além de aperfeiçoar na prática aquilo que se aprende em sala de aula, o programa remunera o colaborador pelas seis horas trabalhadas. Nesse aspecto já se observam impactos financeiros na vida dessas pessoas, mas um dado bastante significativo é que há uma efetivação de 40% do banco de estagiários do programa, algo que ilustra muito bem como esse reflexo se dá na prática, não só para esses estudantes, mas para as famílias delas”, destaca Priscila Lopes.
Cursos de Humanas são mais procurados na graduação
Um levantamento da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd) da UFRN mostra que alguns dos cursos mais procurados por esse público, no ano passado, foram História e Filosofia. Fabiano Gomes, procurador educacional institucional da universidade, explica que costuma haver maior interesse pelas Ciências Humanas por conta, muitas vezes, de experiências pessoais. “Para alguns, estar nessa área é uma forma de se especializar, de certo modo, naquilo em que eles atuam ou que já atuaram”, afirma.
Apesar disso, segundo Gomes, há estudantes 60+ em todas as áreas do conhecimento na instituição, com especial destaque, ainda, para Ciências e Tecnologia (mais informações sobre a participação, no gráfico abaixo). “Eles estão também nas engenharias e na meteorologia. O que a gente observa nesse movimento de busca pelo Ensino Superior é que essas pessoas sempre tiveram o desejo da graduação e, ao ver os filhos e netos ingressando na universidade, o desejo é reavivado. Com a aposentadoria, essa possibilidade passa a ser mais viável”, analisa.

A presença desses estudantes tem implicação na dinâmica das aulas, segundo o procurador educacional, uma vez que são estudantes que, ainda podem manter alguma ocupação laboral. Outro aspecto a ser considerado é o uso de tecnologias e o fato de que são pessoas que ficaram um tempo considerável afastadas da sala de aula.
“Talvez isso seja, inclusive, uma das dificuldades para que esses estudantes se insiram nos cursos de Exatas. A maturidade para a leitura e a gestão do tempo pode, naturalmente, fazer com que eles tenham uma inclinação maior para as Ciências Humanas”, diz Fabiano Gomes. Para auxiliar os alunos na superação desses desafios, a UFRN conta com serviços de apoio, como programas de monitorias que ajudam o ingressante a se adaptar à vivência acadêmica.
“Aqueles com mais de 60 anos podem recorrer aos próprios centros acadêmicos ou ao Instituto Envelhecer (IEN), aqui da universidade, que realiza estudos e ações voltadas para o público da terceira idade com o intuito de tornar a participação acadêmica mais produtiva”, afirma Gomes. Levando em conta o envelhecimento acelerado da população brasileira, a participação desses estudantes no Ensino Superior tende a seguir em expansão, daí a necessidade de políticas de integração para a manutenção desse público na universidade.
Segundo o Censo 2022, do IBGE, a população brasileira com 60 anos ou mais chegou a 32,1 milhões de pessoas, o que representa 15,6% do contingente total. No Rio Grande do Norte, o índice de envelhecimento alcançou 53,05, o maior do Nordeste, o que significa que há 53 pessoas com 65 anos ou mais para cada 100 crianças de até 14 anos. “A presença desse público nas instituições de ensino precisa ser inclusiva. Mas isso depende às vezes da interação entre os estudantes. E não é incomum que os mais velhos se sintam constrangidos diante de um público juvenil, mesmo que não haja situações de preconceito nessa dinâmica”, fala Fabiano Gomes.
Carlos Lucena conta que, em quase dois anos de graduação, nunca passou por qualquer tipo de discriminação, mas reconhece que interagir com os mais jovens no começo não foi tarefa fácil. “Iniciei o curso à tarde, onde a turma é formada basicamente por alunos saídos do Ensino Médio, então, senti muito essa dificuldade. Quando fui para o turno da noite, onde os colegas são um pouco mais velhos, notei uma melhora na interação. Hoje, percebo que a dificuldade lá do começo foi mais uma questão minha, de achar que não iam querer interagir comigo por eu ser mais velho”, admite.
Desafios e apoio
Estar no Ensino Superior pode significar conviver diariamente com múltiplos desafios, mas para a geração prateada, as experiências de vida são importantes aliadas na hora de superá-los. Ainda assim, uma rede de apoio que leve em conta as especificidades dessa população, é imprescindível. Francisca Ferreira, por exemplo, percebeu que o ensino a distância era mais viável, dentro da realidade dela.
“Estudo com intensidade, então o EaD me permite conciliar direitinho a graduação com a família. Tenho um apoio muito grande do meu tutor e também dos colegas de curso. Sem falar no apoio estrutural da universidade, porque quando preciso fazer pesquisas, busco o acervo da biblioteca da universidade e outros núcleos da instituição”, relata Francisca, que se dedica a estudos na área da seca.
Financeiramente estabilizada, a universitária diz que pensa nos efeitos que a graduação trará para outras vertentes da vida dela no futuro. “Busquei a Licenciatura para que quando eu me formar, possa dar aulas de reforço ou até mesmo atuar na rede estadual ou municipal de ensino. O que eu quero é buscar e transmitir conhecimento sempre”, ressalta.
Já Carlos Lucena, que está presencialmente na universidade todos os dias, diz que sente falta de algumas iniciativas que exaltem as pessoas mais velhas na instituição. “Todos os movimentos estudantis, por exemplo, são voltados para os jovens. Este ano entrei na disputa para o Centro Acadêmico do curso justamente com essa mensagem, de que os colegiados e órgãos tenham representatividade de pessoas mais velhas, uma vez que a participação de alunos 50+ tem aumentado na UFRN”, afirma.
Bate-papo
Priscila Lopes, gerente de Talentos e Cultura do Banco Mercantil

De que forma você avalia que o Acelera+ estimula as pessoas acima dos 50 anos a estarem na universidade?
O Acelera+ é um programa de inovação fruto de um desdobramento do Acelera Mercantil, ambos voltados para estagiários. O primeiro tem tudo a ver com nosso público-alvo, que são as pessoas 50+. A gente vê a iniciativa como um estímulo direto para que essas pessoas estudem e tenham uma carreira, porque muitas foram para o mercado de trabalho quando jovens apenas com o Ensino Médio. Ao mesmo tempo, pode ser um estímulo para uma segunda carreira ou uma recolocação no mercado. O fato é o que programa serve de incentivo para o aumento do nível escolar, para uma mudança de carreira ou uma recolocação.
E para as empresas, quais os benefícios de ter um colaborador 50+ no time?
No caso do Banco Mercantil, nós acreditamos que é muito válido trazer o ponto de vista de alguém mais jovem da mesma maneira que é igualmente válido ter o ponto de vista de quem já tem uma jornada percorrida. Isso é algo que ajuda a tomar melhores decisões e eu acredito que este é um fator que deve ser expandido para outras empresas também. Quanto mais diverso o time, mais resultados serão obtidos.
Quais os impactos no bem estar dessas pessoas você avalia que uma graduação pode trazer?
Esses impactos são muito relativos e dependem de cada um. Nós vamos encontrar pessoas que estão estudando e fazem questão da prática, por isso procuram estágios e cadastros em bancos de talento como o nosso. Tem gente que está na faculdade porque já trabalhou e formou família. Outros veem uma chance de recomeço, ao passo que alguns querem apenas ocupar o tempo para reduzir os índices de ansiedade e porque querem fazer algo produtivo. Para todos esses aspectos, o importante é ter estímulos. Por isso, ressalto que iniciativas de estágios e bancos de talentos são importantes.
Tribuna do Norte

