Familiares de duas das vítimas mortas por técnicos de enfermagem dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta relataram ao Metrópoles que, durante o período de internação, foi observada uma melhora no quadro clínico dos pacientes antes da morte. A ação criminosa dos técnicos foi descoberta pela própria unidade de saúde e denunciada à polícia civil.

Segundo as famílias de Marcos Moreira (33 anos) e João Clemente (63 anos), os pacientes nunca apresentaram comorbidades ou problemas cardíacos, além de, durante o período de internação, receberem relato de melhora nos quadros de saúde.A família de Marcos Moreira chegou a ser comunicada sobre a decisão dos médicos de iniciar a diminuição da sedação e medicação, para que o paciente pudesse ser extubado em breve. O que não ocorreu, de fato.

Já a família de João Clemente relatou ter desconfiado desde o início de algum tipo de erro, uma vez que, durante a internação, os médicos relatavam melhoras do paciente.

“Os médicos falavam que todo dia ele melhorava um pouquinho. Ele estava se recuperando. A gente não imaginava que ia ter esse desfecho, que ele ia ser assassinado dentro do hospital. Desde o começo eu desconfiei, mas achei que era um erro médico, e não um assassinato”, declarou Valéria Leal, filha de João Clemente.

Desconfiada, a família solicitou o prontuário ao hospital logo após a morte.

“Uma das coisas que trouxe desconfiança pra gente foi a forma como ele faleceu, porque não tinha nada que justificasse ele ter tido essa parada cardíaca, ele não tinha nenhuma cardiopatia, algo que fosse compatível com o que aconteceu. A complicação que ele teve foi relacionada ao pulmão. Não ao coração. Toda a família e os amigos, todo mundo realmente foi pego de surpresa com a morte dele”, afirmou.

Quase dois meses após a morte do pai, a filha de José Clemente recebeu uma chamada do hospital pedindo reunião presencial. Na ocasião, a equipe informou à família que havia detectado que a morte do paciente poderia ter sido criminosa.

A comissão de óbito do Hospital Anchieta, onde José Clemente estava internado — e já havia passado em outras ocasiões sem qualquer intercorrência —, observou um padrão atípico em três mortes e abriu investigação interna. Após observar a ação de três técnicos, o caso foi levado à polícia, que investigou e prendeu os suspeitos.

“Não é fácil vir a público, se expor, falar disso, porque a gente está passando por um momento muito difícil, mas é necessário, porque a gente tá procurando justiça. Alguma coisa tem que mudar”, cobrou Valéria.

Entenda o caso

  • A primeira fase da Operação Anúbis foi deflagrada na manhã de 11 de janeiro, com o apoio do Departamento de Polícia Especializada (DPE).
  • Na ocasião, dois investigados foram presos temporariamente por ordem judicial. Também foram cumpridos mandados de busca e apreensão em endereços localizados em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas, no Entorno do Distrito Federal.
  • Durante as diligências, os policiais recolheram materiais considerados relevantes para a apuração, que passaram a ser analisados pelos investigadores.
  • A polícia busca esclarecer a dinâmica das mortes, o papel de cada suspeito e se houve participação de outras pessoas.
  • As investigações tiveram um novo avanço na última quinta-feira (15), com a deflagração da segunda fase da Operação Anúbis.
  • Nesta etapa, a Polícia Civil cumpriu mais um mandado de prisão temporária contra uma investigada e realizou novas apreensões de dispositivos eletrônicos em Ceilândia e Samambaia.

Confira a nota do hospital na íntegra:

“O Hospital Anchieta S.A., referência em cuidados de saúde em Brasília/DF há 30 anos, vem a público esclarecer as providências adotadas diante de fatos graves envolvendo ex-funcionários da instituição.

Ao identificar circunstâncias atípicas relacionadas a três óbitos ocorridos em sua Unidade de Terapia Intensiva, o Hospital instaurou, por iniciativa própria, em cumprimento ao seu dever civil, ético e ao seu compromisso com a transparência, comitê interno de análise e conduziu investigação célere e rigorosa, que em menos de vinte dias resultou na identificação de evidências envolvendo ex-técnicos de enfermagem, as quais foram formalmente encaminhadas às autoridades competentes.

Com base nessas evidências, fruto da investigação interna realizada pela instituição, o próprio Hospital requereu a instauração de inquérito policial, bem como a adoção das medidas cautelares cabíveis, inclusive a prisão cautelar dos envolvidos os quais já haviam sido desligados da Instituição, prisões as quais foram cumpridas pelas autoridades nos dias 12 e 15 de janeiro de 2026.

Pautado pela transparência de seus processos e pela confiança nos protocolos internos que norteiam sua atuação, o Hospital entrou em contato com as famílias envolvidas, prestando todos os esclarecimentos necessários de forma responsável e acolhedora. Reitera, ainda, que o caso tramita em segredo de justiça, o que impossibilita a divulgação de informações adicionais bem como a identificação das partes envolvidas.

O hospital entende que o segredo de justiça é imprescindível à preservação da apuração, à proteção das partes envolvidas e ao regular exercício das atribuições das autoridades competentes, o qual deve ser estritamente observado de acordo com os limites impostos pela decisão judicial.

O Hospital, enquanto também vítima da ação destes ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas, e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a Justiça”.

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