Por trás do conforto de um clique no celular existe uma multidão de trabalhadores que move a cidade sem que quase ninguém os enxergue. Motoristas, motoboys e entregadores de aplicativo percorrem Natal todos os dias em jornadas que chegam a 14 horas diárias, sem descanso, sem proteção trabalhista e, muitas vezes, sem qualquer rede de amparo quando sofrem acidentes. Essa realidade foi escancarada nesta sexta-feira 31 em audiência pública realizada na Câmara Municipal de Natal, proposta pela vereadora Samanda Alves (PT), que reuniu representantes do poder público, sindicatos e pesquisadores — mas nenhum representante das empresas Uber, 99 ou iFood compareceu.
“Nós estamos pagando para trabalhar”, resumiu Carlos Cavalcante, presidente do Sindicato dos Trabalhadores por Aplicativos (Sintat). Segundo ele, há casos de motoristas que “trabalham 16 horas por dia e voltam para casa com boletos de multas”. O sindicalista calcula que Natal tenha cerca de 20 mil trabalhadores por aplicativo, número superior ao efetivo de qualquer empresa privada no Rio Grande do Norte. “Se o trabalhador para, ele não paga a luz, a água nem o aluguel do carro. As empresas não querem assumir responsabilidade alguma”, criticou.
Um retrato da precarização
Os dados apresentados pelo professor Felipe Coelho, pesquisador da UFRN e coordenador do GPET (Grupo de Estudos sobre Trabalho e Precarização), dimensionam o problema. “O Brasil tem 1,7 milhão de trabalhadores de aplicativos, quase 2% de toda a força de trabalho privada, e esse número cresceu 25% em dois anos”, afirmou. Segundo ele, 61% trabalham mais de oito horas por dia, e 8% chegam a 14 horas diárias, sem direito a férias, 13º ou previdência. “Quase 60% não contribuem para a Previdência Social e, quando sofrem acidentes, 85% não recebem nenhum tipo de assistência das plataformas”, disse.
A pesquisa feita em Natal mostra o mesmo padrão: “88% dos entregadores trabalham para o iFood, o que demonstra o monopólio e a falta de alternativas. Quarenta por cento já se acidentaram, e a maioria está por conta própria para se recuperar”, afirmou Felipe. Segundo ele, “as plataformas prometem liberdade, mas entregam subordinação”.
O silêncio das empresas e a ausência do Estado
Nenhum representante das plataformas compareceu à audiência, embora tenham sido convidadas. A MobTech, que representa Uber, 99 e InDriver, enviou apenas uma carta. A ausência revoltou os participantes. “Eles aparecem em Brasília com exércitos de advogados, mas não vêm a Natal olhar nos olhos do trabalhador”, disse Carlos Cavalcante. “Isso mostra o desprezo dessas empresas por quem sustenta seus lucros bilionários”, completou.
A vereadora Samanda Alves criticou a omissão institucional: “Não dá para falar de mobilidade urbana ignorando quem faz a cidade se mover. Nosso mandato é de oposição, mas estamos aqui para construir pontes e resultados”, afirmou. Samanda apresentou um projeto de lei em tramitação que busca garantir pontos de apoio, banheiros públicos e áreas de descanso para entregadores e motoristas.
O superintendente regional do Trabalho, Cláudio Gabriel, lembrou que o tema já chegou à pauta do governo federal. “Há um projeto de lei em discussão nacional que pretende criar uma rede de proteção social para os trabalhadores de aplicativo. Eles não podem continuar à margem da legislação”, declarou. Ele defendeu que o reconhecimento desses profissionais como categoria formal é “uma questão de dignidade e de cidadania”.
O cotidiano de quem move a cidade
A realidade descrita pelos trabalhadores vai além dos números. Alexandre da Silva, representante da associação Atamb, que reúne entregadores de moto e bicicleta, contou que muitos enfrentam multas injustas, acidentes graves e pressão constante dos algoritmos. “As plataformas nos obrigam a correr. Se a entrega atrasa, você perde pontos e pode ser bloqueado. O risco é nosso, o lucro é deles”, disse.
Ele explicou que os cursos de capacitação promovidos pela associação — 600 vagas para entregadores — não foram suficientes para atender à demanda. “Querem que sejamos regulamentados, mas não oferecem estrutura nem cursos gratuitos. O trabalhador precisa pagar do próprio bolso até o capacete”, afirmou.
Outro ponto polêmico foi a proposta de criar faixas compartilhadas entre motos e ônibus, como já ocorre em Goiânia e São Paulo. “A infraestrutura de Natal não comporta o volume atual de motos e carros de aplicativo. O compartilhamento é uma alternativa para reduzir acidentes e melhorar a fluidez do trânsito”, defendeu Alexandre.
Trabalhar mais, ganhar menos
Segundo os dados apresentados, embora alguns motoristas cheguem a receber o equivalente a R$ 3 mil por mês, o valor é ilusório. “O combustível, o IPVA, as multas e o aluguel do carro consomem tudo. É uma falsa sensação de renda alta”, disse Carlos Cavalcante. “A cada corrida, o trabalhador paga para sustentar o sistema.”
Felipe Coelho acrescentou que, na média, o trabalhador de aplicativo ganha 8,3% menos por hora trabalhada do que profissionais com vínculo formal. “É a perversão da lógica do trabalho. Ele trabalha mais, ganha menos e fica sem direitos”, explicou.
A vereadora Samanda também destacou o aumento dos acidentados que chegam ao hospital Walfredo Gurgel. “A maior parte dos sinistros envolve entregadores e motoristas de aplicativo. É uma questão de saúde pública e de responsabilidade social”, disse.
Representando o setor produtivo, Laumir Barreto, da Fecomércio, defendeu uma “regulação equilibrada”, que concilie “proteção social e sustentabilidade econômica”. Segundo ele, “direitos exacerbados podem inviabilizar o negócio, mas a ausência deles destrói a dignidade humana”.
A STTU, por meio do secretário adjunto Saulo Spinelly, informou que o município já está “revisando a legislação que rege o transporte por aplicativo”, em conjunto com órgãos de trânsito e o Ministério Público. “Após a revisão, o texto será aberto para consulta pública e debate com as associações”, prometeu.
Para o superintendente Cláudio Gabriel, “a luta sindical é essencial para transformar indignação em direitos concretos”. Ele afirmou que o Ministério do Trabalho no RN manterá “portas abertas para colaborar com sindicatos e associações”.
Um movimento que ganha forma
A audiência terminou com um consenso: o trabalho por aplicativo é a nova fronteira da precarização no País. E em Natal, a categoria começa a se organizar. “Estamos formando um movimento consciente e unido. Queremos reconhecimento, proteção e respeito”, disse Carlos Cavalcante.
Na plateia, poucos trabalhadores puderam comparecer — muitos não tiveram como abandonar o aplicativo, nem por algumas horas. “A galeria está vazia, mas não é vergonha. É o retrato da nossa realidade: quem parar de trabalhar, não come”, resumiu Carlos.
Entre promessas de novas audiências e projetos de lei em andamento, ficou a mensagem central de uma categoria que carrega nas costas a engrenagem invisível do cotidiano urbano: quem move a cidade precisa ser visto, ouvido e protegido.
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