A decisão que embasou a deflagração da Operação Contenção nesta terça-feira (28) na Zona Norte do Rio de Janeiro narra uma estrutura hierarquizada e armada do Comando Vermelho que promove uma rotina de punições e torturas no Complexo da Penha.
A ordem de prisão preventiva de 51 suspeitos foi assinada pelo juiz Leonardo Rodrigues da Silva Picanço, da 42ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, no dia 8 de julho. O magistrado afirma que somente a “amarga” medida teria o condão de “preservar a ordem pública, impedindo que os réus, em liberdade, sigam suas carreiras criminosas”.
“Os elementos de convicção trazidos a exame deixam revelar a contento relevantes indícios de autoria e prova da materialidade dos crimes de tortura e associação para fins de tráfico de drogas, praticado nas imediações de estabelecimento de ensino, com emprego de arma de fogo e envolvendo adolescentes”, escreveu o magistrado.
A investigação conduzida pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes foi aberta depois de uma denúncia anônima feita em janeiro de 2024, que informou que haveria uma reunião de lideranças do Comando Vermelho na Comunidade da Penha para organizar estratégias para expansão de seu poder territorial.
Os investigadores apontam Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca ou Urso, a principal liderança do Comando Vermelho no Rio, e Pedro Paulo Guedes, o Pedro Bala, como integrantes do primeiro escalão da facção no Complexo da Penha.
Os homens de confiança de Doca, de acordo com os investigadores, são Carlos Costa Neves, o Gardenal, e Washington Cesar Braga da Silva, o Grandão ou Síndico da Penha.
As provas colhidas durante a investigação revelam que a facção possui estrutura hierarquizada com divisão de tarefas entre lideranças, homens de confiança, gerentes do tráfico local e de localidades coligadas, soldados do tráfico e outros membros de menor hierarquia.
Os líderes da facção usam grupos no WhatsApp para emitir ordens sobre a comercialização de drogas para os subordinados, determinar escalas de plantões nas bocas de fumo, nos pontos de monitoramento e de segurança armada.
A investigação mostrou ainda que os grupos são usados para tratar de veículos roubados, monitoramento de viaturas policiais, contabilidade das vendas de drogas e até execução de pessoas que contrariassem seus “interesses criminosos” na comunidade.
Trocas de mensagens mostram que Doca determina “a dinâmica do tráfico de drogas no Complexo da Penha e comunidades adjacentes, inclusive sobre venda e guarda de drogas, armas de fogo de grosso calibre e contabilidade da facção criminosa”.
A investigação narra que Gardenal é gerente geral do tráfico na Penha, responsável por liderar a expansão violenta e criminosa da facção em Jacarepaguá e por orientar a grande maioria dos traficantes sobre compra de armas de fogo e drones de vigilância.
De acordo com as provas colhidas, Gardenal ostenta armas de alto calibre, grandes quantidades de dinheiro, carros de luxo e “vistosas joias”.
Grandão é gerente geral do Comando Vermelho na Penha, responsável, entre outras funções, por estabelecer a escala de plantão e pagamentos dos soldados da facção, orientar sobre trincheiras no mato e monitoramento.
Os investigadores apontam Juan Breno Malta Ramos, o BMW, como chefe do Grupo Sombra, equipe de matadores a serviço do Comando Vermelho para atuar na expansão territorial da facção em Jacarepaguá.
Segundo a investigação, BMW é responsável por orientar a prática de punições e tortura contra moradores e rivais, além de treinar soldados do tráfico com armas de grosso calibre. Ele atua na área operacional, na liderança de um grupo violento que emprega armas de fogo de grosso calibre em suas ações e atua com violência extrema contra rivais.
Vídeos e conversas obtidas pelos investigadores por meio de interceptação dos aparelhos mostram a rotina de punições e torturas no território. Um vídeo incluído na investigação mostra Aldenir Martins do Monte Junior sendo arrastado por um carro, amordaçado e algemado, por alguns minutos, para confessar participação em uma delação a um grupo rival.
O homem implora por perdão, aos gritos, citando diversas vezes o nome de BMW, que, em resposta, “faz piada do sofrimento alheio, debochando da vítima agonizante”, narra o juiz.
A decisão que autoriza a operação cita ainda a atuação de Fagner Campos Marinho. Bafo, como é conhecido, é soldado do tráfico de drogas e exercendo as atividades criminosas com emprego de arma de fogo de grosso calibre, geralmente, fuzil.
A crueldade de Bafo, de acordo com a decisão, é ressaltada pela sua atuação na tortura de um indivíduo amarrado e ensanguentado. “Fagner indaga se a vítima ‘quer morrer logo’, e o indivíduo, possivelmente pela exaustão e crueldade da tortura recebida, balbucia, parecendo aceitar a sua execução, como forma de interromper o sofrimento”, mostra o documento.
O juiz sustenta que a maior parte dos denunciados ostenta “vasto histórico de infrações em sua vida pregressa”, o que denota que as revelações das investigações não seriam fatos isolados em suas vidas.
“Ao revés, deixam revelar que o crime consubstancia verdadeiramente seus meios de subsistência, razão pela qual inescondível que a custódia cautelar desses denunciados se revela imperativa à garantia da ordem pública”, afirma.
De acordo com o juiz, embora alguns dos denunciados não tenham antecedentes criminais, foram flagrados “em pontos de venda de drogas, portando armas de grosso calibre, rádio comunicador, dinheiro e material entorpecente, evidenciando que suas liberdades colocariam em risco à ordem pública”.
“Ora, é pueril imaginar que uma vida criminosa, como resta indiciado ser a dos acusados acima mencionados cessará como que por encanto. Não é isso que a realidade demonstra”, afirma o magistrado
Foram expedidos 51 mandados de prisão preventiva. Dezessete investigados foram alvos de medidas cautelares diferentes da prisão, como recolhimento domiciliar noturno e proibição de deixar a cidade sem autorização da Justiça.
CNN

