“Minha história começa no lixo. Eu nasci em Jacareí, no interior de São Paulo, e passava meus dias brincando num ‘lixão’, que na verdade era um terreno baldio ao lado de um bar. Minha avó biológica queria ficar no barzinho e, para eu dar ‘sossego’, ela me deixava ali, sozinha. Aquele lugar sujo acabou virando, para mim, uma espécie de playground. Eu abria sacos de lixo, comia restos de comida e ficava horas ali, toda sujinha, cheia de verme, piolho e carrapato.
Até que um dia, quando eu tinha um ano e dez meses, passou pela rua a Sebastiana. Ela era lavadeira de roupas, mãe de nove filhos e morava numa casinha de três cômodos. Mesmo sem ter estrutura nenhuma, me viu naquele estado e se aproximou de mim. Eu estendi o bracinho e, naquele instante, a vida de nós duas mudou. Ela me pegou no colo, conversou com minha mãe biológica e me levou. Me tornei a décima filha dela.
Nossa casa era muito humilde, mas cheia de afeto. Panelões de comida que mal davam, improviso para tudo, sempre contando com muito amor. Tive uma infância difícil: aos 8 anos já vendia coxinha na rua para ajudar minha mãe a comprar uma torneira.
Aos 13, conciliava escola e trabalho. Estudava de manhã e trabalhava à tarde numa papelaria. Era para ser só um bico de volta às aulas, mas me destaquei. Teve um dia em que caiu um temporal e eu corri para a calçada com guarda-chuvas e capas de chuva… zerei o estoque!
A lojinha era apertada e entulhada, mas eu adorava. Atendia, etiquetava, arrumava prateleira. Eu era muito nova, mas já tinha aquela sensação de ‘preciso ajudar em casa’. A responsabilidade chegou cedo demais, mas eu nem pensava nisso. Quando a gente cresce na falta, aprende a correr atrás. Eu só seguia.
Por volta dos 15 anos, conheci o pai dos meus filhos. Fiquei grávida aos 17, nos casamos às pressas, foi um choque. Eu era praticamente uma menina, sem estrutura nenhuma. Engravidei da Thereza. Três meses depois que ela nasceu, engravidei do Jean. Não tinha maturidade pra entender a dimensão daquilo. Mas quando peguei a Thereza no colo, algo mudou. E quando o Jean chegou, mudou ainda mais.
A maternidade me deu força, mas também me tirou o chão. Eu vivia cansada, sem autoestima, sem dinheiro, e num casamento imaturo que não funcionava. Era como se tudo estivesse desabando ao mesmo tempo.
Mas meus filhos viraram meu maior combustível. Foi por eles que eu pegava dois ônibus para tentar emprego em outra cidade, em São José dos Campos. Foi por eles que aceitei trabalhar só por comissão. Eles se tornaram meu ‘porquê’ e meu ‘por quem’.
Meu casamento acabou em três anos. Voltei para a casa da minha mãe Sebastiana com dois bebês, emocionalmente quebrada e sem nada. Dormia com eles num colchão na sala. A fralda vazava à noite, a claridade da janela me acordava. Era duro, porém minha família me acolheu.
Foi logo depois dessa fase que minha saúde desabou. Eu tinha 22 anos. Estava tão cansada da correria que achava normal ter taquicardia, inchaço nas pernas, cansaço extremo. Um dia, atendendo uma cliente, a Dra. Nancy, ela olhou para mim e perguntou: ‘Alexandra, você está tratando esse nódulo no seu pescoço?’
Eu nem sabia que tinha nódulo. Mostrei para ela minha perna absurdamente inchada e perguntei se aquilo tinha a ver com a tal saliência.
A verdade é que eu trabalhava tanto, corria tanto, cuidava de tanta coisa ao mesmo tempo, que não tinha tempo de perceber meu próprio corpo. À noite, para tirar a calça do uniforme, eu precisava cortar a lateral com tesoura, de tanto inchaço. Achava que era só cansaço.
A Dra. Nancy foi um anjo na minha vida. Perguntou se eu tinha convênio, eu disse que não. Ela me deu o telefone do consultório e praticamente me intimou a aparecer lá para uma consulta gratuita. Fui diagnosticada com dois nódulos na tireoide, comprimindo minhas cordas vocais. Meu metabolismo estava completamente desregulado e eu corria risco de trombose.
O tratamento inicial era com 12 comprimidos por dia, mas não funcionou. Passei então para uma medicação mais forte, que deixava meu corpo muito frágil. Resultado: queda intensa de cabelo, ganho de peso, autoestima destruída. Mesmo assim, eu seguia atendendo clientes, trabalhando com o público como se nada estivesse acontecendo. Era dor física e emocional todos os dias.
Mas eu queria dar um futuro melhor para os meus filhos. Houve um momento decisivo para mim: o dia em que não tinha lanche para o primeiro dia de aula deles. Consegui bolsa numa escola particular e eu havia comprado um pacote de bisnaguinhas, mas em casa morava muita gente e meus irmãos comeram tudo. No outro dia, só vi o pacote vazio no lixo e não tinha dinheiro para comprar outro. Aquilo me destruiu. Enquanto a dificuldade era comigo, eu até aceitava, mas quando respingou neles, não aceitei. Ali decidi que não queria mais viver no looping da escassez. Eu merecia abundância. Meus filhos mereciam.
Por isso, fiquei 15 anos trabalhando como vendedora na mesma rede de calçados. Depois fui crescendo: de gerente passei a ser supervisora e depois gerente regional. Eu coordenava outras gerentes. Era muito trabalho, muita responsabilidade.
Quando minha vida começou a estabilizar, consegui comprar um apartamento e um carro, a minha filha passou em Medicina. No ano seguinte, meu filho também passou, mas ele nem queria me contar, com medo de me preocupar, porque eu não teria condições de pagar.
Foi então que surgiu uma oportunidade inesperada. Em 2010, fiz uma entrevista para uma vaga de gerente em uma loja atacadista em Angola. Passei e decidi ir. Meu objetivo era pagar as faculdades de Medicina dos meus filhos. Era arriscado, desafiador, longe de tudo, mas sabia que aquilo podia mudar nosso futuro. Lá, também vi que, se eu trabalhasse mais, conseguiria juntar dinheiro suficiente para montar meu próprio negócio.
Deixar minha família foi extremamente difícil. Me tirava o ar, o medo, a insegurança de pedir demissão num emprego que já estava consolidado há 15 anos, no melhor momento da minha carreira. O que mais doeu foi ficar longe dos meus filhos: aniversários, Natal, Dia das Mães… muitas datas que acompanhei só por foto. Mas o que mais pesou foi o futuro deles. Preferi sofrer com a saudade para garantir que eles tivessem oportunidades depois.
O choque cultural em Angola foi intenso. Faltava estrutura, havia instabilidade, tudo era novo pra mim. Mas o povo angolano me acolheu de forma linda. No trabalho, liderei 70 pessoas num ambiente completamente diferente e isso me tornou mais humana e forte. Aprendi resiliência como nunca antes.
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Cinco anos depois, quando voltei ao Brasil, meu sonho de empreender já estava claro. O empreendedorismo sempre foi um desejo antigo, mas eu não tinha capital. Decidi aplicar todo esse conhecimento e fiz cursos no Sebrae, estudei mercado, busquei entender os segmentos mais viáveis. Queria criar uma empresa com atendimento humano, caloroso, verdadeiro, tudo que sempre acreditei.
Os desafios para abrir minhas primeiras franquias foram enormes. Não podia errar: eram as economias de cinco anos de trabalho duro em Angola. Comecei com franquias [ela é franqueada da Casa do Pão de Queijo e Café do Ponto] porque já vinham com estrutura, processos testados e validados. Escolhi café porque ele é afeto, encontro, acolhimento. É a cultura do brasileiro e servir sempre foi a minha essência.
O nascimento da minha própria marca, o Café do Barão, aconteceu de forma quase natural. Eu já mirava até uma loja física específica: excelente localização, em um dos melhores shoppings de São José dos Campos. Por dois anos, tentei negociar com o antigo proprietário, sempre recebendo negativas. Até que um dia ele aceitou conversar. Foram seis meses de negociação até concretizarmos o negócio no início de 2025.
Pensei em instalar uma franquia ali, mas ao assumir a loja percebi algo importante: os clientes amavam o estilo colonial, que remetia a fazendas e casarões antigos. Quando mencionamos mudar o layout ou trazer uma franquia, eles rejeitavam. Queriam acolhimento, conexão, relacionamento. Ouvir os fregueses mudou tudo.
Hoje, o que mais me motiva é transformar vidas: da minha equipe, dos meus consumidores e das pessoas que treinam comigo. Meu propósito é mostrar que qualquer improvável pode vencer. Não importa de onde você veio, importa para onde quer ir. Sou a prova viva de que ter vindo do lixão não me define.”
Marie Claire

