Adquirir remédios falsificados e ver o quadro de saúde só piorar pode parecer uma situação vista mais na ficção, como no enredo da novela Três Graças. Mas em países de baixa e média renda, 1 em cada 10 produtos médicos em circulação é falsificado ou subpadronizado (de qualidade inferior), de acordo com os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como o Brasil é um país de média-alta renda, de acordo com o Banco Mundial, essa estatística não se aplica a nós e não há um ranking de falsificação global. Ainda assim, o tema preocupa órgãos de saúde brasileiros, principalmente quando se trata de medicamentos vendidos pela internet.

Na novela das 21h, a personagem Lígia, vivida por Dira Paes, sofre de uma doença rara chamada hipertensão arterial pulmonar (HAP) e toma medicamentos distribuídos gratuitamente pela Fundação Ferette, comandada por Murilo Benício.

O vilão recebe de laboratórios a doação de remédios verdadeiros, mas os substitui por placebos feitos de farinha, produzidos numa fábrica clandestina que ele mesmo monta. Já os remédios verdadeiros são revendidos no mercado paralelo, por um valor abaixo da tabela e com pagamento em dinheiro vivo.

No Brasil da vida real, produtos mais caros, como canetas emagrecedoras, toxina botulínica e remédios para câncer, estão entre os mais frequentemente encontrados na lista de medicamentos falsificados, segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF). Além da falsificação, muitas vezes, esses produtos também são importados irregularmente ou são objeto de roubo.

Ao ingerir medicamentos falsificados, o paciente – além de não melhorar – pode ter uma piora do quadro de saúde, sofrer intoxicação, interações medicamentosas não esperadas e diversas alterações no organismo, como da pressão arterial e dos níveis de glicose.

Já produtos verdadeiros que foram roubados têm a eficácia comprometida quando não são armazenados de forma correta.

Especialistas alertam que o consumidor deve desconfiar de preços muito abaixo dos praticados no mercado, de embalagens adulteradas e com erros de grafia e sem a chamada ‘raspadinha’ – um retângulo branco que, quando raspado com objeto metálico, evidencia a logo do fabricante.

Além disso, a legislação impede que uma farmácia seja 100% remota. Ou seja: toda farmácia, seja convencional ou de manipulação, precisa ter um estabelecimento físico e aberto ao público, mesmo que venda também pela internet.

A indústria farmacêutica alega que as farmácias de manipulação têm fiscalizações menos rigorosas que as convencionais. Já o setor de farmácias de manipulação destaca que cumpre uma série de regulamentos. A Anvisa informou o g1 que as análises de controle de qualidade de medicamentos são focadas em produtos produzidos em série – de farmácias convencionais – e que que a produtos manipulados são monitorados pelas vigilâncias sanitária locais.

Estima-se que os países gastem US$ 30,5 bilhões por ano com produtos médicos subpadronizados e falsificados. Esses produtos são frequentemente vendidos online ou em mercados informais.

Segundo a ONU, populações vulneráveis, países sem proteção social e nações com sistemas de saúde frágeis são mais sujeitos ao risco, mas o problema é global. Nenhuma região está imune e tanto países desenvolvidos quanto em desenvolvimento enfrentam suas consequências devastadoras.

Atualmente há mais de 94,7 mil farmácias convencionais no país, segundo dados da IQVIA e Close-Up International, dois institutos de auditoria do mercado. Já as farmácias de manipulação somam cerca de 8 mil. O país ocupa a oitava posição mundial em consumo de medicamentos, de acordo com dados da IQVIA de 2024.

Confira os medicamentos mais falsificados no Brasil e veja como se proteger; novela Três Graças faz alerta | Foto: Adobe Stock/ Globo/Estevam Avellar
Confira os medicamentos mais falsificados no Brasil e veja como se proteger; novela Três Graças faz alerta | Foto: Adobe Stock/ Globo/Estevam Avellar

“Compre seu medicamento na farmácia que você conhece. Não compre remédio em barraca, em feira livre, na porta do metrô. E se o valor estiver barato demais, desconfie”, alerta o presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini.

O aumento recente de roubos de canetas emagrecedoras em farmácias tem feito muitos estabelecimentos reduzirem os estoques. Assim, o paciente tem passado a comprar mais no site da farmácia antes de ir buscar pessoalmente, ou pedir para receber em casa.

Além disso, o porta-voz do Sindusfarma destaca que medicamentos de tarja vermelha devem ser adquiridos somente com receita de um profissional de saúde. “Um remédio com a dosagem errada pode fazer mal. Hoje é muito fácil obter uma receita porque há a teleconsulta”, acrescenta.

1. Os medicamentos mais falsificados atualmente no Brasil

De acordo com o CFF, em 2025, os medicamentos mais frequentemente encontrados na lista de medicamentos falsificados até o momento, de empresas desconhecidas, foram:

  • Botox: marca de toxina botulínica usada para amenizar linhas de expressão)
  • Dysport: marca de toxina botulínica tipo A)
  • Mounjaro: tirzepatida, que age como análogo do hormônio GLP-1
  • Keytruda: medicamento injetável usado para tratar vários tipos de câncer, incluindo melanoma, câncer de pulmão, de estômago, de cabeça e pescoço, de células renais, câncer cervical, câncer colorretal e linfoma de Hodgkin.
  • Opdivo: medicamento injetável usado para tratar vários tipos de câncer, assim como o Keytruda.
  • Durateston: propionato de testosterona (hormônio masculino)
  • Oppy: analgésico opiáceo forte, de tarja preta, utilizado para alívio de dor intensa.
  • Cloridrato de fluoxetina: indicado para o tratamento da depressão, associada ou não a ansiedade, da bulimia nervosa, do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e do transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM), incluindo tensão pré-menstrual (TPM), irritabilidade e disforia.

Nelson Mussolini explica que as farmácias de manipulação não fazem as canetas emagrecedoras, mas fazem a injeção e usam as marcas da indústria, que são propriedade intelectual.

“Você encontra de tudo. Se procurar pelo nome da marca da caneta, acrescentando a palavra ‘manipulado’ ou ‘em comprimido’, aparecem inúmeros anúncios. Eles mudam a fórmula do produto e usam uma fórmula farmacêutica que não é registrada na Anvisa”, alerta Mussolini.

2. Como saber se um medicamento é original

As embalagens de medicamentos regularizados possuem um lacre ou selo de segurança, que, ao ser riscado com um objeto metálico, expõe a logomarca do fabricante.

Em casos de roubo de caminhões com medicamentos, a legislação obriga a comunicação à Anvisa sobre os lotes roubados e exige o recolhimento do lote. Mas, segundo a Abrafarma, os lotes produzidos pela indústria farmacêutica abrangem milhares de itens. Muitas vezes o caminhão é roubado com um lote que foi enviado em muitos outros caminhões para muitas localidades e já não é possível interditar todo o lote.

Segundo a Anvisa, para todos os casos de falsificação identificados pela agência, são publicadas resoluções de proibição, que servem para alertar as vigilâncias sanitárias do país, consumidores e órgãos policiais.

Qualquer suspeita de falsificação ou ineficácia de um medicamento pode ser relatada à Anvisa por seus canais de notificação ou à vigilância sanitária do município.

3. Como verificar se uma farmácia convencional é regularizada

As grandes redes de farmácias estão apenas nas 1.100 maiores cidades brasileiras e a informalidade é comum nas cidades menores e até mesmo na periferia das maiores, de acordo com a Abrafarma.

De acordo com resolução da Anvisa, o estabelecimento deve manter em local visível ao público:

  • A licença ou alvará sanitário
  • A Certidão de Regularidade Técnica
  • Razão social;
  • Número de inscrição no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas;
  • Número da Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE) expedida pela Anvisa;
  • Número da Autorização Especial de Funcionamento (AE) para farmácias, quando aplicável;
  • Nome do farmacêutico responsável técnico e de seu(s) substituto(s), seguido do número de inscrição no Conselho Regional de Farmácia;
  • Horário de trabalho de cada farmacêutico;
  • E números atualizados de telefone do Conselho Regional de Farmácia dos órgãos estadual e municipal de Vigilância Sanitária.

Para verificar a regularização de uma farmácia, o cliente pode consultar os seguintes órgãos e seus respectivos sistemas:

  • Anvisa: a agência tem um sistema que permite verificar se a empresa possui a autorização da Anvisa para funcionar.
  • Conselho Regional de Farmácia (CRF): para atestar a situação legal do estabelecimento e do farmacêutico responsável e para buscar a certidão de regularidade, o cliente pode consultar o site do CRF do estado onde a farmácia está localizada (ex: CRF-SP, CRF-RJ, CRF-MG, etc.), procurar por “Consulta Certidão de Regularidade“, “Consulta CRT” ou “Consulta Pública”.

A Anvisa destaca que a farmácia é um estabelecimento regulado pela agência e que cabe a elas seguirem a regulação e adquirirem medicamentos somente de distribuidoras e fabricantes autorizados pela Anvisa. Toda a cadeia produtiva de medicamentos é fiscalizada pelo Sistema Nacional de Vigilância Sanitária.-

4. O perfil das farmácias irregulares

Um vendedor não regulamentado, muitas vezes não registrado, que vende medicamentos e outros produtos de saúde representa uma farmácia informal.

A farmácia irregular prospera em áreas com acesso limitado a cuidados de saúde formais, como comunidades urbanas pobres e cidades pequenas, oferecendo conveniência, preços acessíveis e serviços flexíveis, destaca Carolina Maria Xaubet Oliveira MSc, PhD do Centro Brasileiro de Informação sobre Medicamentos (CEBRIM).

“Em comunidades carentes e cidades pequenas, por exemplo, podem ocorrer vulnerabilidade e oportunismo, medicamentos falsificados/contrabandeados, dispensação informal e comércio em locais não autorizados”, destaca Oliveira.

5. Dicas de como escolher uma farmácia de manipulação

Farmácias magistrais, popularmente conhecidas como de manipulação, são aquelas que produzem medicamentos de forma individualizada, a partir de prescrição médica. As fórmulas são personalizadas por diferentes motivos, como:

  • para quem tem intolerâncias ou restrições
  • em quantidade necessária para o período de tratamento, de forma a impedir sobras
  • sem componentes que possam causar alergias ou intolerâncias ao paciente
  • com uma apresentação diferente daquela vendida em larga escala, como um medicamento em gotas para crianças que é normalmente vendido como comprimido, por exemplo.

Esses estabelecimentos, por lei, só podem produzir a partir da prescrição médica personalizada, ou seja, não podem produzir em larga escala, para atender a necessidades específicas. Eles também não podem ter médicos como proprietários, para não haver conflitos de interesse.

Confira dicas de como escolher uma farmácia de manipulação segundo a Associação Nacional de Farmacêuticos Magistrais (Anfarmag):

  • Prescrição obrigatória de um profissional de saúde: nenhum produto ou medicamento pode ser manipulado sem receita de um médico, nutricionista, dentista, farmacêutico ou outro profissional de saúde habilitado. A prescrição garante que o tratamento seja adequado e respeite as necessidades individuais do paciente.
  • Presença de farmacêutico responsável: toda farmácia de manipulação tem um farmacêutico presente durante o horário de funcionamento. Esse profissional é responsável por esclarecer dúvidas, orientar o paciente e supervisionar toda a manipulação do medicamento e dos produtos de saúde. O paciente pode entrar em contato com o farmacêutico mesmo após a compra do produto para pedir orientações.
  • Registro e fiscalização: toda farmácia de manipulação possui alvará de funcionamento da Vigilância Sanitária e deve estar devidamente regularizada junto ao Conselho Regional de Farmácia (CRF). Essas certificações são obrigatórias, estão expostas na área de recepção da farmácia e asseguram que o estabelecimento segue normas técnicas.
  • Estrutura adequada e boas práticas: o ambiente deve transmitir segurança, limpeza e organização. Deve igualmente ser bem iluminado e ter a área de recepção aberta ao público durante todo o horário de funcionamento.
  • Informação transparente: uma farmácia de manipulação fornece nota fiscal, instruções de uso e etiquetas completas nos frascos, indicando dosagem, lote, validade, modo de conservação, nome do paciente e do profissional que prescreveu a fórmula. Com a ordem de produção do medicamento, é possível fazer um rastreamento da medicação.

“A farmácia de manipulação legal nunca sabe o que vai ser pedido. É como se fosse um restaurante sem cardápio. Empresas que vendem medicamentos pela internet, em massa e sem pedido de profissional de saúde são irregulares. O alvará precisa estar exposto na recepção. Desconfie de empresas mal iluminadas, sujas, em salas fechadas e sem farmacêutico”, orienta Marco Fiaschetti, farmacêutico e diretor executivo da Anfarmag.

6. Como denunciar

Medicamentos falsificados e farmácias irregulares podem ser denunciados pelo consumidor aos seguintes órgãos:

  • Procon
  • Vigilância Sanitária local
  • Conselho Regional de Farmácia
  • Anvisa
  • Polícia local

7. Os desafios para o setor e as autoridades

A Abrafarma destaca que, além da falsificação, o produto sem registro e criado em fundo de quintal também deve ser combatido. “Podemos falar em uma verdadeira teia criminosa de produção e venda desses itens sem qualquer punição. Há anos marketplaces online são denunciados à Anvisa e não se faz nada”, afirma Sérgio Mena Barreto, CEO da Abrafarma.

“O país caminha perigosamente nessa área, simplesmente porque formulações que não existem, ou seja, são literalmente inventadas por manipuladores inescrupulosos, são vendidas livremente em marketplaces em todo o país”, diz Barreto.

Ele acrescenta que não se trata somente de falsificar um item conhecido. O que não tem registro na Anvisa não pode ser vendido. “Há proibição expressa na legislação que não é obedecida. É um problema muito maior, um verdadeiro caso de polícia”, diz.

Neuropsicopedagoga Janaina Fernandes