O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação para apurar a possível atuação do criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein no aliciamento de uma moradora de Natal, mencionada em documentos tornados públicos no chamado Epstein Files, nos Estados Unidos. O procedimento está sob sigilo na Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes (UNTC). A informação, obtida com exclusividade pela TRIBUNA DO NORTE, foi confirmada pelo MPF na terça-feira (10).

A denúncia acolhida pelo MPF é baseada em análises de documentos públicos, divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que registram trocas de mensagens entre Jeffrey Epstein e uma personagem identificada como “Alexia”. Ao longo dos e-mails, o nome aparece com variações, como “Alexia Righi”, “Alexia Suriani” e “Ale”, entre outras grafias. É nessa sequência de comunicações que surge a menção à mulher descrita como “pobre, simples e da periferia de Natal” e cuja possível viagem internacional passou a ser tratada nas conversas.

No último dia 4 de fevereiro, TN revelou menções diretas à capital potiguar nos Arquivos de Epstein. Além das conversas com Alexia, Natal é citada também em uma interação entre Epstein e o agente de modelos frânces Jean-Luc Brunel. Segundo investigações nos EUA, Brunel era um dos principais parceiros de Epstein, e que supostamente atuava como um intermediador para “captar” mulheres para o bilionário.

Epstein Files – Foto: Department of Jusice of U.S.

Na sexta-feira (6), a procuradora regional da República, Stella Fátima Scampini, deu continuidade à denúncia ao encaminhar ofício ao UNTC “dando conta de possível aliciamento e envio de mulher residente nos arredores de Natal/RN para exploração sexual nos EUA”.

Em nota enviada à TN, o órgão confirmou que “houve abertura de investigação” e que “investigações desse tipo correm em sigilo, dada a sensibilidade do tema e a necessidade de proteção das vítimas”. O MPF disse ainda que está atento aos desdobramentos do caso em todo o País. “A UNTC acompanha a divulgação dos arquivos do caso e está atenta aos fatos que envolvem cidadãos brasileiros ou que tenham sido praticados no Brasil”.

A relação entre Natal e Epstein foi inicialmente levantada em um fórum de discussões na internet, o Reddit. Na terça-feira (3), o pesquisador de Segurança da Informação e Inteligência Artificial, Lucas Matheus, iniciou uma discussão na plataforma, que logo foi acompanhada por outros usuários. Desde então, o caso mobilizou um grupo de pessoas que vasculham as mais de três milhões de páginas dos Epstein Files.

“Comecei por curiosidade mesmo, achei que estavam fazendo pouco caso com o Nordeste. As cidades eram citadas, mas não as conexões. Partiu de querer que vá para a frente, de investigar um assunto muito sério que é o tráfico de pessoas. Acho que a gente deve usar nosso conhecimento para o bem, decidi usar esses princípios que aprendi no IFRN e no IMD para chamar a atenção das autoridades”, pontua Lucas.

A relação entre Epstein e “Alexia”

As mensagens denunciadas e analisadas pela reportagem foram trocadas entre 2009 e 2015 e registram uma interlocução prolongada entre Jeffrey Epstein e a mulher identificada como Alexia. As trocas de mensagens indicam que a primeira menção à suposta vítima – que nesta reportagem será identificada de forma fictícia como “Maria” – ocorreu durante o período do Réveillon de 2010 para 2011, em Natal.

Em uma conversa por e-mail com Epstein, cujo assunto é “A viagem de Maria”, no dia 2 de janeiro de 2011, “Ale” pergunta a Epstein “como devemos proceder” em relação a jovem identificada aqui como Maria. Ela sugere viajar em um mesmo voo com Maria para Nova York, argumentando que a garota não fala inglês, nunca viajou internacionalmente, não possui passaporte e vem de uma família “muito pobre” nos arredores de Natal. Ela completa: “Você vai adorar ela! Ela realmente é uma garota muito doce :)”.

Horas depois, a suposta intermediadora diz que não tem dinheiro para custear passaporte, visto e passagem e pergunta se Epstein poderia enviar dinheiro por MoneyGram – uma plataforma de transferência internacional de recursos. Ele responde: “Eu posso te dar dinheiro em Nova York”. Na sequência, Epstein pede mais fotos, pergunta em que cidade elas estão, solicita um telefone para contato e questiona onde estaria a irmã da suposta intermediadora. No dia seguinte, “Ale” responde que estava em Natal, na casa da mãe.

Em 4 de janeiro de 2011, Jeffrey Epstein retoma o interesse pela suposta vítima natalense e envia um e-mail para Alexia: “Pode tirar fotos melhores de Maria? Lingerie, biquíni”. Onze dias depois, ainda no mesmo contexto, Epstein demonstra hesitação e afirma que a “ajuda” poderia ser “mal interpretada”, dizendo que não poderia seguir adiante naquele momento. “Você sabe o que o pessoal pensa hoje em dia”. A essa altura, Epstein já havia se declarado culpado do crime de exploração de menores em 2008 e fechou um acordo para cumprir 13 meses de prisão.

Apesar do aparente recuo, o diálogo prossegue. Em 17 janeiro de 2011, Ale informa que “ela”, em possível referência a Maria, havia solicitado e pago o passaporte, que ficaria pronto no dia 26 daquele mês. Na mensagem, ela descreve a suposta vítima como “muito doce” e afirma que ela seria o “tipo” de Epstein, sugerindo que tivesse “uma chance” de conhecê-lo em uma próxima viagem a Paris. “Se por qualquer motivo vocês dois não se derem bem, você não a verá novamente”, completa.

Um dia depois da data prevista para a retirada do passaporte, Epstein pergunta a Alexia: “Ela pegou o passaporte?”

A reconstrução cronológica das mensagens indicam acompanhamento contínuo do processo por parte de Epstein, desde o envio de fotos até o pedido de confirmação sobre a retirada do passaporte. Os registros mostram que, de fato, Epstein pegou um voo comercial sozinho em direção a Paris em abril daquele ano, semanas após a troca de mensagens em que a cidade é mencionada como possível local de encontro.

Até o momento, no entanto, as investigações ainda não permitem confirmar se a moradora de Natal viajou, se houve encontro ou se qualquer crime foi consumado.

Dinheiro para celular, cirurgia e aluguel

Os documentos analisados pela reportagem mostram que a interlocutora identificada como “Alexia” manteve contato direto e recorrente com Jeffrey Epstein entre 2009 e 2015. As trocas incluem mensagens pessoais, convites para encontros em Nova York, Paris e Flórida, intermediações feitas por assistentes de Epstein e, sobretudo, registros de pedidos de ajuda financeira para cirurgia, comprar celular e até evitar um despejo.

A comunicação começa, pelo menos, em abril de 2009. Em 21 de abril daquele ano, Epstein escreve “liga para o escritório” para Alexia. Nas semanas seguintes, a assistente de longa data de Epstein, Lesley Groff, confirma a visita ao escritório e um pagamento. Em 15 de maio de 2009, ela informa Jeffrey: “Alexia está no escritório pedindo um adicional de $450 (dólares). Ela disse que comprou um iPhone e agora precisa pagar”. Epstein retorna e autoriza um pagamento adicional de $200 (dólares).

Em 2 julho de 2009, Alexia pede um depósito para custear uma cirurgia. Ela diz que estava no Brasil com a mãe e que tinha adiado o procedimento, mas que poderia remarcar para a semana seguinte, desde que ele mandasse o dinheiro. No dia 20 do mesmo mês, Alexia pede R$ 8 mil e envia a conta da mãe para o depósito. Epstein autoriza a transação, mas é alertado pelo seu contador, Rich Kahn, de que o banco no qual possui conta não processa reais brasileiros. Epstein pede para que o contador resolva o impasse diretamente com Alexia. No dia seguinte, $4,2 mil (dólares) são transferidos para a conta de “Alexia Suriani”.

As trocas de mensagens sugerem que a cirurgia em questão se trataria de um procedimento estético, para implantação de próteses de silicone nos seios. Isso porque dois dias após o depósito do dinheiro, Alexia diz para Epstein que estava “em casa e com peitos”. Na mesma mensagem ela escreve que ainda “não viu eles”, mas que o tamanho “parece ótimo” e que “mal posso esperar para mostrá-los”. Epstein responde pedindo fotos.

Ao longo de 2009 e 2010, os diálogos continuam e incluem novas solicitações de fotos e convites para encontros em Nova York e Flórida, o que pode reforçar que o contato entre os dois não se limitava a assuntos logísticos ou financeiros, mas também de caráter íntimo. Em 2011, 2012 e 2013, o contato permanece ativo, com marcação de compromissos intermediados por assistentes.

Em 2 maio de 2013, Alexia Righi faz um apelo a Epstein ao relatar o risco de um despejo e o medo de virar uma “sem teto”. “Estou tendo sérios problemas com o lugar onde moro, e eles não querem renovar meu contrato, querendo me despejar o quanto antes”, escreve. Alexia cita que enfrentava um processo judicial, mas que não tinha dinheiro para pagar um advogado.

“Existe alguma maneira de você me ajudar com um lugar para ficar pelo menos até o mês de maio? Não quero ficar sem teto!!! :(”, escreve Alexia Righi. No e-mail, apesar de relatar dificuldades, ela informa que enviou fotos recentes da “brasileira favorita” e menciona que uma amiga brasileira estaria “esperando te conhecer em breve”.

As trocas seguem até 2015. Em 27 de março daquele ano, há mensagens sobre um possível encontro em Paris e tentativa de um contato por Skype.

Tribuna do Norte
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