Cooperativa EcoD’elas, no conjunto Gramoré, em Natal, transforma plástico em móveis sustentáveis como carteiras escolares. Foto: Magnus Nascimento

Em meio ao avanço das discussões sobre sustentabilidade, a reciclagem e o reaproveitamento de resíduos revelam uma força silenciosa capaz de unir preservação ambiental e inclusão social, mudando a paisagem das cidades e também o destino de famílias que sobrevivem daquilo que o consumo insiste em abandonar. E mudar o próprio destino é o que esperam as mulheres atendidas pelo projeto Pró-Catadores, do Sebrae-RN, no conjunto Gramoré, em Natal. Cada vez mais perito na arte de transformar plástico em móveis, o grupo mergulhou na iniciativa, movido especialmente pela causa ambiental.

O projeto do Sebrae chegou ao Rio Grande do Norte em 2025 e já atendeu a 459 catadores, 47 organizações do setor e 45 municípios potiguares, com perspectiva de ampliação desses números em 2026. O investimento é de R$ 4 milhões. Em processo de organização, a Cooperativa EcoD’elas, no conjunto Gramoré, na zona Norte da capital, é um dos empreendimentos atendidos. Formada por mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica, a cooperativa recebe, até o final deste mês, formação completa para transformar o plástico em móveis sustentáveis, além de capacitação empreendedora.

A formação é feita pela ONG The Human Project (THP), parceira do Sebrae, por meio do projeto ZRO. Com a assistência, as mulheres da cooperativa desenvolveram o conjunto escolar infantil (carteira + cadeira) Ecodesk, fabricado 100% a partir de resíduos plásticos. Após concluir a fase de formação, a ideia é vender o kit para a rede pública de ensino – processo que deve ser encabeçado pela THP – e ampliar o leque de produtos fabricados.

Mas a ideia não é focar apenas em móveis para unidades escolares. “Estamos pensando em modelos de mesinhas e cadeiras para pousadas, tendo em vista que Natal é uma cidade turística”, conta Ana Cláudia Fonsêca, vice-presidente da cooperativa.

O plástico utilizado pela cooperativa é obtido por meio de doação, e também pelo Sebrae e o ZRO, que captam o material através de cooperativas de catadores. “Aqui nós não temos essa função de separar o lixo, então, estas são as formas pelas quais a gente consegue o plástico, que deve ser entregue limpo. Um material sujo não vai resultar em um bom produto”, enfatiza Ana Cláudia.

O trabalho é feito em uma oficina, um espaço cedido pelo Centro Educacional Dom Bosco. Para os móveis, são utilizados plásticos de produtos como baldes, bacias, garrafões d’água, cadeiras e tampas de garrafas de refrigerante. Inicialmente, se necessário, a matéria-prima a ser transformada é triturada com um facão, mas esse processo acontece de forma integral em uma máquina específica para esta função.

“O material que nós utilizamos aqui é de dois tipos: o PEAD (2) e o PP (5). Essa descrição vem na própria embalagem plástica, representada em um triângulo. Esses tipos são separados no momento da trituração. Eles foram escolhidos porque apresentam maior resistência e durabilidade, que são os diferenciais dos nossos produtos”, afirma Christiane Pessoa, presidente da cooperativa EcoD’elas.

Após ser triturado, o plástico é derretido em uma segunda máquina, de onde sai em formato de placa. Geralmente, esse é um processo que acontece em um único dia. Em seguida, é feito o acabamento da placa, que será cortada e moldada para a montagem. Todos os processos dependem de máquinas específicas.

Francinete Nascimento, 35, integrante da cooperativa EcoD’elas. Foto: Magnus Nascimento

Pioneirismo em Natal
Jéssica Sá, coordenadora do projeto ZRO e que está responsável pela formação da cooperativa, disse que o foco é atender mulheres sem formação técnica e que necessitam melhorar as próprias condições de renda. Ela realiza formações em outros estados e trouxe para o RN a aplicação do conjunto escolar Ecodesk, já implantado e premiado em uma escola da comunidade quilombola Pedra Furada, em Sergipe. “As mulheres que atendemos não são escolhidas por acaso, por isso buscamos aquelas que são mães solo ou que têm como única fonte de recursos o Bolsa Família, por exemplo”, explica Jéssica.

É o caso de Francinete Nascimento, da cooperativa EcoD’elas. Aos 35 anos, Francinete cuida sozinha dos cinco filhos. No projeto, ela encontrou a esperança de um futuro com múltiplas possibilidades. “É uma cooperativa que vai nos proporcionar um avanço e independência financeira que são muito importantes”, conta.

Andrea Rodrigues, de 42 anos, também está feliz em participar da iniciativa. “Estou muito alegre, porque somos pioneiras nesse trabalho de transformar plástico em móveis em Natal”, diz ela, que também cuida sozinha de cinco filhos e vislumbra no projeto uma nova fonte de renda.

Na Ecoloja de Lagoa de Velhos, a moeda de pagamento é o Fabião. Foto: Cedida

Para catadores do Agreste, “Lixo é ouro”

Em Lagoa de Velhos, no coração do Agreste potiguar, uma iniciativa tem alterado a forma como moradores lidam com os próprios resíduos sólidos desde o final de março deste ano, além de gerar emprego e renda na região. A mudança ocorre graças a um dos eixos do programa Lagoa de Velhos Sustentável, implantado pela Prefeitura Municipal, que envolve o uso de uma moeda circular, o Fabião, para compras em uma ecoloja da cidade a partir da coleta dos resíduos. A proposta é gerar impacto socioambientel, de acordo com o prefeito José Nildo Galdino.

“Em abril, primeiro mês do programa, o resultado foi excepcional: das 32 toneladas de lixo coletadas, cerca de 21 foram para o aterro sanitário, enquanto sete foram para a reciclagem e as outras três para compostagem. Nossa meta é, em um ano, reduzir o envio de lixo para o aterro. Em apenas um mês, atingimos um terço dessa meta”, comemorou o prefeito.

O principal fator de estímulo à mudança foi a criação da ecoloja Maria Carolina de Jesus, onde é possível comprar produtos como pipocas e doces, itens de limpeza e de higiene pessoal com a moeda Fabião. Na prática, as famílias entregam os resíduos mediante o pagamento feito com a moeda circular, a qual, por sua vez, é utilizada por essas mesmas famílias para as compras na ecoloja. A coleta dos resíduos é feita pela Associação Mãos que Reciclam, assim como a gestão da loja. Para a logística da coleta, cada casa da cidade recebeu da Prefeitura um kit com três baldes (onde devem ser separados vidro, material orgânico e rejeitos) e dois sacos (para plástico e papel).

“A moeda sai da associação para comprar o reciclável e retorna depois por meio da lojinha”, descreve o prefeito. A Associação Mãos que Reciclam conta com 12 associados, os quais são divididos em equipes para fazer a coleta e triagem dos resíduos, além dos cuidados com a ecoloja. Os ganhos dos associados vêm de um contrato com a Prefeitura para a coleta de lixo e da venda dos resíduos a empresas de reciclagem. “Para a iniciativa, contamos com um catador antigo da cidade – Raimundo Caboclo – e mais 11 associados. A maioria deles estava sem trabalho antes do projeto”, conta Suerda Cristina, presidente da associação.

Todos os associados receberam treinamento do Sebrae, através do projeto Pró-Catadores. Para Suerda, a preservação do meio ambiente é um dos objetivos mais importantes da iniciativa. “Estamos muito felizes. Todos nós acreditamos muito nos benefícios desse projeto, afinal, lixo é ouro” afirma ela.

Catadores da Associação Mãos que Reciclam, em Lagoa de Velhos, coletam resíduos, fazem a triagem, além da gestão da Ecoloja. Foto: Cedida

Ampliação
Para 2026, a meta do Sebrae é atender, por meio do Pro-Catadores, 630 catadores, 40 organizações e 45 municípios, com consultorias, capacitações e rodadas de negócios. Segundo Mabele Dutra, analista do Sebrae/RN, dentre as ações planejadas para este ano estão o mapeamento da cadeia de reciclagem no estado e consultorias para ampliação de portfólio das organizações de catadores.

“O Pró-Catadores capacita para ampliar a visão de negócio, identificação de produtos com maior valor agregado, melhores técnicas e argumentos de negociação, bem como para expandir as oportunidades de relacionamento com a cadeia”, detalhou Mabele.

Tribuna do Norte
Limpa Mil