Documentos divulgados pelo governo dos Estados Unidos sobre o bilionário Jeffrey Epstein, condenado por tráfico sexual de menores e morto na prisão em 2019, mencionam possíveis tentativas de recrutamento de jovens no Rio Grande do Norte.
Arquivos analisados pelo NOVO indicam a existência de contatos no Brasil e citam ao menos dois episódios relacionados a Natal entre 2010 e 2011.
Segundo os registros, um depoimento afirma que Epstein teria uma conexão no Brasil com um “agente” responsável por tentar recrutar jovens no Nordeste. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos ocultou os nomes das pessoas citadas nos documentos.
As conversas incluídas nos arquivos detalham a atuação de intermediários. Em novembro de 2010, um interlocutor informou a Epstein que viajava pelo Nordeste, passando por João Pessoa, Recife e Natal, e afirmou ter “conseguido uma garota”. No mesmo diálogo, o remetente mencionou ter encontrado um “booker” (agenciador) em São Paulo para levar pessoas aos Estados Unidos. Nesse primeiro caso, a jovem de Natal quase teria sido levada aos Estados Unidos.

Os documentos registram dificuldades no processo de recrutamento. Em dezembro de 2010, o interlocutor informou a Epstein que os pais da jovem haviam desistido da viagem após “buscarem informações online”. O recrutador afirmou que enfrentava resistência e que não era fácil convencer os familiares da jovem. A identidade da jovem não foi revelada.
Ainda segundo os registros, não há relatos de que Jeffrey Epstein tenha passado por Natal.
Em janeiro de 2011, mensagens tratam da logística para levar uma jovem de uma “área muito pobre nos arredores de Natal” até Nova York. O interlocutor relatou que a jovem não falava inglês, nunca havia viajado e não possuía passaporte. As conversas abordaram custos de visto e passagens, além da forma de envio de dinheiro, com menção a remessas por serviços de transferência financeira. Epstein chegou a solicitar mais fotos da jovem. Os registros, no entanto, não esclarecem se o encontro ocorreu.

Os arquivos ressaltam que o fato de uma pessoa ser mencionada ou ter imagem incluída nos documentos não implica, necessariamente, a prática de crime. O material faz parte de um conjunto maior de documentos tornados públicos pelas autoridades americanas no âmbito de investigações relacionadas a Epstein.
Jeffrey Epstein morreu em 2019, em uma prisão de Nova York. Ele foi acusado de comandar uma rede internacional de exploração sexual envolvendo meninas menores de idade. Segundo a acusação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, o esquema funcionava por meio do aliciamento de jovens que recebiam dinheiro para realizar atos sexuais, e algumas eram pressionadas a recrutar outras meninas. As investigações apontam que os crimes ocorreram principalmente entre 2002 e 2005, em propriedades na Flórida, em Nova York, no Novo México e em uma ilha particular nas Ilhas Virgens Americanas, com estimativa de mais de 250 menores exploradas.
A primeira investigação formal teve início em 2005, após denúncias em Palm Beach, na Flórida. Em 2008, Epstein firmou um acordo judicial, declarou-se culpado por exploração de menores e cumpriu 13 meses de prisão em regime brando. O acordo foi considerado ilegal por um juiz federal em 2019. Em julho daquele ano, Epstein voltou a ser preso, acusado de tráfico sexual de menores e de operar uma rede de exploração. Em agosto de 2019, foi encontrado morto na cela. A autópsia concluiu que ele tirou a própria vida.
Os documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos reúnem milhões de páginas, imagens e vídeos. Parte do material detalha a rotina de Epstein na prisão, sua morte e trocas de mensagens com pessoas identificadas por apelidos. O Brasil aparece em trechos dos arquivos como um dos países mencionados em conversas sobre recrutamento, com referências a jovens brasileiras levadas aos Estados Unidos. Há ainda menções a planos de negócios no país, como a possível compra de uma agência de modelos e a criação de concursos de beleza.
A liberação dos documentos ocorreu após decisão política e judicial nos Estados Unidos. Durante a campanha presidencial, Donald Trump prometeu tornar públicos os arquivos do caso. Em 2025, após pressão do Congresso e da opinião pública, uma lei determinou a divulgação integral do material disponível.
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