A euforia com a inteligência artificial (IA) é evidente — e a escalada de valorização das ações ligadas à IA parece não dar sinais de arrefecimento. Os relatórios trimestrais divulgados pela Microsoft, Alphabet e Meta Platforms mostraram que as três juntas impulsionaram suas despesas de capital em IA em US$ 78 bilhões (R$ 417,89 bilhões). Isso representa um acréscimo de 89% ante a 2024.

Empresas do setor têm atraído bilhões em investimentos, impulsionadas pela promessa de transformar indústrias e redefinir a produtividade com a ajuda da inteligência artificial e da infraestrutura que vem sendo criada para o seu bom funcionamento. Em 2025, companhias ligadas à IA responderam por 80% dos ganhos da bolsa americana — uma dependência significativa e sem precedentes.

As ações da Nvidia, maior produtora de semicondutores usados em IA, valorizaram mais de 1200% nos últimos cinco anos. Em outubro, a empresa se tornou a primeira da história a atingir US$ 5 trilhões (R$ 27 trilhões) em valor de mercado, um mês após atingir a marca de US$ 4 trilhões. Além disso, nesse dia, chegou a responder por 8% do S&P 500, principal índice de Wall Street.

Outras empresas de tecnologia também registraram expansão nos últimos cinco anos, como Microsoft (142%), Meta (158%) e Alphabet (220%). O S&P 500 subiu em torno de 96% no período.

Entre os investidores, muitos já falam sobre uma possível bolha, outros já não tem tanta certeza. Uma pesquisa mensal do BofA Global Research com gestores de fundo mostrou que 54% deles já afirmam estar em uma bolha de IA, ante 38% que não acreditam que exista uma.

A consultoria Gartner projeta que os gastos globais com IA devem chegar a US$ 1,5 trilhão (R$ 8,4 trilhões) antes do fim de 2025. Com esse avanço, o mercado começa a se preocupar sobre qual é o limite dessa valorização — o que aconteceria se a IA não entregar os retornos robustos esperados e quanto valor seria perdido se essa suposta bolha estourasse.

Apesar dos ganhos expressivos, o temor de bolha tem machucado o mercado. A Nvidia e Microsoft acumularam perdas de 5% na última semana, já as empresas Advanced Micro Devices (AMD) e Palantir registraram queda de mais de 10%.

Destruição da valor com bolha da IA

O receio no mercado não é atoa. Um dos motivos pelos quais investidores temem um colapso nos ativos é devido a dependência das maiores empresas dos Estados Unidos — e seus mercados — estarem vinculadas à tecnologia.

Nos anos 2000, as 20 principais companhias do S&P 500 representavam 39% do valor total do índice. Onze delas eram empresas relacionadas à internet. Atualmente, essa porcentagem aumentou — as 20 maiores respondem por 52%, com o mesmo número comprometido com a IA. As Big Techs (Magnificent 7) representam 35% do S&P 500.

O movimento de “manada” não é uma novidade no mercado financeiro. Investidores têm o hábito de se empolgar quando novas tecnologias surgem. Nos últimos 200 anos, alguns avanços resultaram em bolhas no mercado de ações — e em uma correção logo depois.

No final dos anos 1990 e início dos 2000, a internet inaugurou uma era de conectividade como nunca vista. Os investidores corriam para financiar qualquer projeto com “.com” no nome, acreditando que o fato de estar online seria suficiente para garantir lucros exponenciais.

A realidade se impôs pouco tempo depois, já que nem todas as ideias se mostraram sustentáveis. Esse excesso de capital acabou gerando um colapso que ficou conhecido como a “bolha da internet” ou, de forma mais popular, a “bolha ponto com”.

Agora, os investidores temem que a atual euforia em torno da inteligência artificial possa seguir o mesmo caminho. O pesquisador e sócio da empresa britânica MacroStrategy Partnership, Julien Garran, publicou que o cenário atual é a maior e mais perigosa bolha que o mundo já viu. Para o especialista, a euforia é 17 vezes maior que a bolha das “.com” e quatro vezes maior que a bolha imobiliária de 2008 e a temida crise do subprime.

O estouro da bolha

Os setores mais expostos a uma correção brusca nas ações de IA seriam aqueles que compõem a estrutura principal dessa tecnologia. Atingiriam primeiro a cadeia de semicondutores, seguida pelas empresas de infraestrutura digital e, na sequência, pelas companhias que dependem da IA para otimizar operações.

No entanto, em 2025, o fenômeno é mais abrangente do que um setor isolado. De acordo com Maria Irene Jordão, estrategista global da XP Investimentos, como as empresas muito expostas à IA já representam quase metade do S&P 500 — espalhando-se por tecnologia, consumo discricionário, imobiliário e utilities — o impacto se amplia ainda mais, especialmente diante da alta demanda energética gerada pelos modelos de inteligência artificial.

Na prática, uma queda não ficaria restrita a ações de tecnologia, ela também afetaria índices amplos, como ETFs passivos, fundos de pensão e produtos de previdência. Nos Estados Unidos, o colapso do mercado de inteligência artificial traria um impacto maior do que o estouro da bolha das “ponto com” — uma quebra poderia eliminar 8% da riqueza das famílias americanas, segundo estudos econômicos recentes.

Uma das razões para o número ser tão maior do que as últimas bolhas é que investir tornou-se muito mais fácil nas últimas duas décadas, e a parcela da riqueza das famílias aplicada no mercado de ações aumentou. Em média US$ 42 trilhões (R$ 226,36 trilhões) — ou 21% da riqueza total das famílias americanas — estão investidos em ações dos EUA. Isso é um acréscimo de quatro pontos percentuais desde a era das “ponto com.”

Segundo estudos macroeconômicos, para cada queda de US$ 100 (R$ 538,95) na riqueza financeira em ações resulta, em média, em uma redução de US$ 3,20 (R$ 17,25) no consumo das famílias. Ou seja, um colapso semelhante ao das “ponto com” reduziria o consumo americano em torno de US$ 500 bilhões (R$ 2,6 trilhões) — equivalente a 1,6% do PIB.

Mercado financeiro

No total, investidores estrangeiros detêm US$ 18 trilhões (R$ 97,01 trilhões) em ações americanas. Segundo a estrategista global da XP, para o aplicador pessoa física, o impacto é direto, com perda de valor patrimonial. “Quem entrou mais tarde, embalado pela narrativa de que a AI ‘não tem como dar errado’, seria o mais vulnerável a quedas rápidas.”

Já para os aportadores institucionais e perfis passivos, a perda pode ser inevitável, pois a própria composição dos índices faz com que mesmo quem não se posicionou em IA esteja, na prática, exposto ao tema. “Se esses papéis caem 40% ou 60%, essa correção aparece na cota de fundos amplos, e não apenas em fundos temáticos”, afirma Jordão.

Outro fator é a velocidade dos valuations. A startup Anthropic foi avaliada em US$ 183 bilhões (R$ 986,28 bilhões) em setembro, mesmo ainda operando com prejuízo. Em novembro, estimativas de mercado passaram a posicionar seu valuation na faixa dos US$ 350 bilhões (R$ 1,8 trilhões) após o novo acordo com Microsoft e Nvidia.

Segundo Pedro Teberga, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da faculdade Einstein, essa é uma escalada muito acelerada em um curto intervalo, sustentada por expectativas futuras. “Isso lembra o comportamento das ‘ponto com’.”

De acordo com ele, se a demanda desacelerar, o mercado global de data centers sente imediatamente. Em 2025, o setor foi estimado em quase US$ 400 bilhões (R$ 2,1 bilhões) e pode superar US$ 600 bilhões (R$ 3,2 trilhões) até 2030. A expansão da capacidade computacional exige obras, redes elétricas mais robustas e equipamentos industriais. Dessa forma, uma reversão no ciclo enfraqueceria esses investimentos.

O setor de venture capital (VC) também seria impactado. Hoje, estimativas mostram que entre 40% e 60% do VC nos EUA está sendo direcionado para a IA. Ou seja, uma correção forte reduziria a liquidez e atrasaria projetos em estágio inicial.

Maria Jordão, da XP, explica que, no extremo, o estouro de uma bolha de IA poderia provocar uma destruição massiva de riqueza financeira, com estimativas que chegam a projetar algo próximo de US$ 20 trilhões (R$ 107,79 trilhões).

Seria quase um efeito dominó, já que as famílias ficariam mais pobres e reduziriam consumo, consequentemente as empresas iriam cortar ou postergar investimentos em tecnologia e expansão de data centers. “Players mais alavancados ou que dependem de valuations elevados para levantar capital enfrentariam stress financeiro. Nesse cenário, a economia global poderia entrar em um período de crescimento mais fraco, já que hoje a IA está no coração do ciclo de investimento corporativo”, diz a estrategista da XP.

A principal diferença para os anos 2000 é que, agora, a maioria das empresas do setor são mais lucrativas, têm caixa robusto e balanços sólidos. Isso reduz a probabilidade de um colapso sistêmico.

Tão ruim quanto parece?

De fato, há semelhanças com o passado — investimentos elevados em empresas de tecnologia que ainda não apresentam resultados tão robustos, otimismo exacerbado e preços das ações próximos às máximas históricas. Porém, apesar das similaridades com o início dos anos 2000, há fatores que diferenciam o momento atual.

De acordo com Pedro Teberga da FGV, a IA funciona como uma nova infraestrutura econômica, e não apenas como uma tendência tecnológica. O impacto estimado pela McKinsey, entre US$ 2,6 e 4,4 trilhões (R$ 14,01 e 23,71 trilhões) por ano em ganhos de produtividade, reforça que existem fundamentos econômicos sustentando o setor. “Em um cenário assim, correções são esperadas, mas não desmontam a tendência estrutural. Por isso, o desfecho mais provável não é o estouro de uma bolha clássica, e sim um ajuste de expectativas”, afirma o especialista.

O analista de BDRs do Santander, Lucas Serra, acredita que o movimento faz parte de um ciclo normal de mercado, e não de uma bolha. “Várias ações estão negociando próximo das suas máximas históricas, e as expectativas em relação à IA são elevadas. Porém, as empresas vêm entregando resultados. Para várias delas, o lucro, por exemplo, cresceu na mesma velocidade do que os preços das ações”, explica o analista.

Serra argumenta que a IA já é amplamente utilizada tanto por empresas quanto por consumidores, com ganhos reais de produtividade e escala, especialmente entre as gigantes do setor. Isso contrasta com o cenário da bolha nos anos 2000, quando as promessas tecnológicas ainda não se traduziam em lucro.

Já a estrategista global da XP, Maria Irene Jordão, afirma que há sinais clássicos de bolha que chamam atenção, como a velocidade da alta e a forte concentração de retornos em poucas empresas. Por outro lado, a demanda por infraestrutura de AI é forte, com sustentação para longo prazo.

Mesmo que os índices acionários pareçam elevados quando avaliados por métricas tradicionais — como o P/L, que relaciona o preço da ação ao lucro atual da empresa — a leitura se altera quando se considera o PEG ratio, indicador que ajusta esse valor ao ritmo de crescimento dos resultados.

Enquanto o P/L captura apenas se a ação está cara no momento presente, o PEG mostra se esse preço é compatível com a velocidade de expansão da empresa. Com isso, analistas apontam que companhias ligadas à IA negociam a múltiplos altos, porém sustentados por crescimento robusto, aceleração dos lucros e fundamentos que, por ora, justificam parte dessa valorização.

“Acredito que não estamos diante de uma bolha generalizada. Se houver ajustes, eles tendem a ser seletivos, e não caracterizar um estouro amplo e indiscriminado”, comenta a estrategista global da XP.

Como uma bolha estoura?

O que chamamos de “bolha” é caracterizado por uma disparada dos preços das ações com fundamentos fracos ou inexistentes. Durante uma bolha, os investidores se mostram dispostos a pagar preços cada vez mais altos pelas ações, com múltiplos mais caros, baseados em premissas que se distanciam de fatos reais.

Na maioria dos casos, a bolha é identificada quando já está prestes a estourar. Porém para ela acontecer é preciso que haja valuations excessivamente inflados e desvinculados dos lucros e receitas, além de um entusiasmo exagerado dos investidores.

Em geral, uma bolha estoura quando o mercado deixa de acreditar na própria alta. À medida que os preços se tornam insustentáveis e os resultados reais não acompanham as projeções, parte dos investidores começa a vender.

Isso rompe o ciclo de confiança que sustentava a valorização. A partir desse ponto, os ativos são descartados e as cotações despencam, ocasionando prejuízos. O melhor remédio para a carteira de investimentos é manter uma estratégia diversificada, sem colocar todos os ovos na mesma cesta.

Forbes

Neuropsicopedagoga Janaina Fernandes