Estudo recente conduzido pelo Canadian Cancer Trials Group, apresentado este mês no Congresso Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), nos Estados Unidos, envolveu 889 pacientes com câncer de intestino em estágio dois (alto risco) e três, acompanhados ao longo de quase oito anos, em seis países. Os resultados revelaram que um programa estruturado de exercícios físicos, com duração de três anos, pode reduzir em 28% o risco de retorno da doença e em 37% o risco de morte, em comparação ao grupo que recebeu apenas orientações básicas de saúde.

A médica oncologista Juliana Florinda, que atua em Natal, esteve presente no congresso e aponta que a importância do estudo reside no impacto significativo da atividade física em contraste com medicamentos caros e com efeitos colaterais. “Dividiram os pacientes com câncer de intestino estágios 2 de alto risco ou estágio 3, que foram operados. Depois esses pacientes receberam quimioterapia padrão, de três a seis meses e, após o momento que finalizaram a quimioterapia, eles foram divididos em dois grupos: um recebeu a orientação que habitualmente já fazemos em consultório, que é a de fazer atividade física, e outro grupo não recebeu apenas a orientação, ele foi supervisionado se realmente estava fazendo atividade física. O que a gente chama de atividade física estruturada”, explica a médica.

Juliana Florinda explica que a meta mínima de atividade equivale ao paciente fazer 150 minutos de caminhada rápida por semana, que corresponde a três vezes por semana, 50 minutos a cada vez. Esse número poderia ser aumentado até o paciente conseguir fazer atividade física todos os dias, ou seja, 50 minutos de caminhada rápida todos os dias da semana. “Os pacientes que fizeram atividade física estruturada supervisionada, comparados com o outro grupo que recebeu só a orientação sobre exercícios em consultório, tiveram uma redução da recorrência de 27% e uma redução de mortalidade de 38%. Então mostra esse impacto enorme da atividade física que é algo que é gratuito e de acesso a todos”, afirma.

Outro ponto abordado pelo estudo e esclarecido pela médica é o de que o grupo que foi supervisionado por três anos teve menor incidência também de outros cânceres, como mama e próstata. “Esse estudo trouxe pra gente que fazer uma atividade física regular, estruturada após concluir o tratamento convencional do câncer de intestino reduz a chance do câncer voltar, reduz a chance de morrer de câncer e reduz a chance de ter outros cânceres. Essa é uma informação muito importante para o paciente, porque esse impacto muitas vezes a gente só consegue com medicamentos, muitas vezes caros e cheio de efeitos colaterais, e aqui a gente fala de atividade física, que só faz bem para o paciente ”, explica. Ela acrescenta que o estudo mostrou que a combinação de cirurgia, quimioterapia e atividade física resultou em uma taxa de sobrevivência de nove em cada dez pacientes após oito anos de acompanhamento.

Juliana Florinda acrescenta que o estudo não se limita a observar os efeitos da caminhada rápida, mas inclui natação, bicicleta e corrida como alternativas de atividades. O principal ponto é que o exercício deve ser de intensidade moderada a vigorosa. Ela aponta que é importante que haja a parceria com educadores físicos para criar programas personalizados para os pacientes, considerando suas individualidades.

Para a médica Juliana Florinda, os resultados do estudo representam um reforço importante à prática clínica. “Esses dados sustentam cientificamente o que já observamos no dia a dia: a atividade física, quando bem orientada, pode ser uma aliada poderosa na recuperação e no controle da doença. Não se trata apenas de uma questão de qualidade de vida, mas de uma estratégia terapêutica complementar”, afirma.

Exercícios como motor de mudança de vida após câncer

A aposentada Joelza Agra conta como a prática regular da atividade física contribuiu para uma mudança de hábitos após dois diagnósticos de câncer. Ela relata que, em 2011, foi diagnosticada com câncer de mama e chegou a ficar um ano afastada do trabalho. Nessa época ela não praticava atividade física regular devido a sua rotina corrida de plantonista. Joelza conta que, em 2021, sem apresentar nenhum sintoma foi diagnosticada com câncer de intestino e, apesar do choque, se manteve positiva e passou por cirurgia. “Se deparar com diagnóstico de câncer é algo assustador e se deparar duas vezes é enlouquecedor eu diria, mas eu não tive medo do diagnóstico. Eu tive uma força mental que me deixou conectada com esse tratamento, então fiz um pacto comigo mesma: que eu ia sair dessa e ia voltar pra dança. Eu estava com câncer pela segunda vez, ia fazer todo o tratamento, ia fazer o necessário, mas eu queria voltar pra dança”, conta ela que havia iniciado recentemente na dança.

A aposentada Joelza Agra conta como a prática regular da atividade física contribuiu para uma mudança de hábitos após dois diagnósticos de câncer | Foto: Adriano Abreu
A aposentada Joelza Agra conta como a prática regular da atividade física contribuiu para uma mudança de hábitos após dois diagnósticos de câncer | Foto: Adriano Abreu

Joelza afirma que com a autorização médica, 30 dias após a cirurgia, iniciou atividades físicas em casa, com exercícios de baixo impacto, seguindo um treino personalizado enviado pela sua personal trainer. Nessa época ela já estava aposentada e relata que começou a praticar treinamento funcional e aulas de dança regularmente e iniciou também algumas atividades de baixo impacto na piscina. Ela enfatiza que a atividade física foi crucial para a sua recuperação após a cirurgia, ajudando-a a levantar-se e a “dar gás” ao tratamento, mesmo durante os períodos de baixa imunidade devido à quimioterapia. “Tenho certeza absoluta que a atividade física me ajudou a levantar depois da cirurgia, foi uma cirurgia de grande porte e se eu não tivesse algum preparo físico teria sido muito mais doloroso”, afirma.

Após a recuperação, Joelza expandiu as suas atividades físicas, substituindo o funcional pela musculação e intensificando as aulas de dança. Atualmente, ela frequenta aulas de bolero, forró, zouk, jazz funk, dança do ventre, pilates e musculação, além de ter experimentado também aulas de kung fu, iniciado a prática de natação em mar aberto e corrida, mas esta teve os treinos interrompidos devido a um problema no joelho. Ela conta também que ainda quer participar de uma corrida de rua e de alguma prova de ciclismo, apesar de ainda não saber andar de bicicleta. O maior desafio, segundo ela, é manter a constância e a disciplina nos exercícios, mas que esses fatores são fundamentais para ter rotina e sentir os benefícios. A aposentada afirma que familiares e amigos dizem que ela faz muitas atividades, mas os médicos e profissionais que a acompanham apoiam sua dedicação.

Joelza está no quarto ano de tratamento para o câncer do intestino e espera receber alta no próximo ano, no momento ela não faz mais uso de nenhuma medicação. Com 63 anos recém completados, ela se descreve como uma pessoa transformada pela atividade física que, inclusive, a ajudou a superar um quadro de ansiedade desenvolvido após o tratamento. A dança tem sido a sua grande aliada nesse processo proporcionando bem-estar mental e físico. “Tenho certeza absoluta que a dança foi minha aliada no processo de cura, ela nos impulsiona e nos dá coragem, eu só dançava três músicas, hoje faço quatro horas e meia de aula. Isso é uma vitória muito grande”, relata.

  • Sintomas e prevenção de câncer de intestino

No Brasil, o câncer de intestino é o terceiro mais comum. Por isso, a médica Juliana Florinda ressalta que seu rastreamento é crucial para a prevenção. Segundo a médica, o exame de colonoscopia é recomendado a partir dos 45 anos para ambos os sexos, como forma de detectar pólipos que, quando descobertos precocemente, a chance de cura pode ser superior a 90%. Ainda de acordo com a médica, a incidência desse tipo de câncer tem aumentado em jovens, possivelmente devido a hábitos de vida, com o consumo de alimentos ultraprocessados. A obesidade, o excesso de consumo de carne vermelha e o sedentarismo também são fatores de risco.

Os sintomas de câncer de intestino incluem dor abdominal persistente, diarreia ou prisão de ventre, emagrecimento inexplicado, sangramento nas fezes e fezes afiladas. A prevenção envolve, principalmente, um estilo de vida saudável, priorizando alimentos naturais e evitando industrializados.

Tribuna do Norte

Neuropsicopedagoga Janaina Fernandes